Sobre duas viagens ao Haiti

Sobre duas viagens ao Haiti – Carta aberta ao novo presidente da UNE

por Otávio Calegari, estudante da Unicamp e membro da Comissão Executiva Estadual da ANEL-SP.

Nas últimas semanas, todo o país teve notícia do último Congresso da União Nacional dos Estudantes. Mais de 8000 estudantes estiveram presentes em Goiânia para ver de perto as figuras de Luís Inácio Lula da Silva e Fernando Haddad, ou participar das mais amplas festas que a UNE se tornou profissional em realizar durante seus eventos.

Não quero entrar aqui nos méritos deste Congresso. Não falarei dos milhões de reais despejados nas mãos da UNE pelo Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, BNDES, Petrobras etc. Tampouco tratarei aqui da falta de debate, da falta de independência política e de todas as outras faltas que os últimos congressos desta entidade tem apresentado. Duas fotos na capa do Globo me ajudam a simplificar o que foi este último Congresso da UNE. Na primeira foto, um estudante chileno aparece se enfrentando com a polícia em meio a bombas de gás lacrimogêneo nas ruas de Santiago. Na segunda foto, que tem no seu subtítulo “Enquanto isso no Brasil…”, Lula e Fernando Haddad aparecem de mãos dadas saudando o “vitorioso” Congresso da UNE. Vale lembrar que a educação brasileira, em vários aspectos, encontra-se em muito piores condições que a educação chilena. Temos então motivos para comemorar? Gostaria muito de ver a resposta dos estudantes chilenos se a UNE sugerisse que estes convidassem para seu congresso seu atual ministro da educação.

Este último Congresso da UNE também elegeu um novo presidente para a entidade. Além de ser jovem, como eu, Daniel Iliescu e eu ainda temos mais uma coisa em comum. Ambos estivemos no Haiti. Eu, no início de 2010, antes, durante e depois do terremoto que devastou o país. Daniel, pouco mais de um mês depois.
Nos menos de 15 dias que passei no Haiti, tive a oportunidade de conversar com muitos haitianos e haitianas e visitar lugares de difícil acesso. Vi de perto a situação das trabalhadoras e trabalhadores da zona franca industrial de Porto Príncipe, que trabalham longas jornadas em troca de salários baixíssimos (de 3 a 5 dólares por dia). Trabalhadoras e trabalhadores que são mantidos sob estrita vigilância. Para além dos abusos de gerentes e superiores, as zonas francas haitianas contam com amplo arsenal de guaritas e seguranças armados para garantir que tudo esteja sob controle. Hoje são três grandes zonas francas no país, localizadas em Porto Príncipe, Ounaminthe e Cabo Haitiano. Não é segredo para ninguém, no entanto, que nos próximos anos, se tudo correr bem para os Estados Unidos, donos do país, várias outras zonas francas serão construídas. Esse é o projeto para o Haiti. Projeto bastante lucrativo, já que toda a produção de mercadorias realizada nas zonas francas é destinada aos Estados Unidos e ao Canadá sem pagar um centavo de imposto ao governo haitiano. Não é preciso ser um gênio para chegar à conclusão de que o Haiti é hoje uma colônia, no sentido clássico da palavra, dos Estados Unidos.
O governo brasileiro vem cumprindo bem seu papel de sócio menor de Bush e agora de Barack Obama. Não só se dispôs a liderar a missão de ocupação do país a partir de 2004 como também nosso falecido ex-vice-presidente, José Alencar, tentou tirar sua casquinha da empreitada, negociando a implantação da maior empresa de tecidos brasileira, da qual era dono, a Coteminas, no Haiti.
Conhecer esta realidade, no entanto, já não é ponto comum entre eu e Daniel Iliescu. Para que, afinal, o presidente de uma entidade que carrega milhões no bolso se daria ao luxo de visitar uma fábrica de tecidos com centenas de operárias e máquinas amontoadas?
Tivemos, no entanto, uma experiência em comum no Haiti. Conhecemos de perto o batalhão brasileiro da Minustah (Missão das Nações Unidas para Estabilização do Haiti). Visitei o BRABATT, principal batalhão brasileiro em Porto Príncipe, no dia 12 de janeiro de 2010, no mesmo dia do terremoto. Não vou reproduzir aqui tudo o que ouvimos nas mais de 3 horas de conversas que tivemos no interior do batalhão. Tampouco os incontáveis preconceitos e a ignorância que fomos obrigados a tolerar por parte dos militares brasileiros com relação ao povo haitiano.
Apenas quero ressaltar aqui duas questões que fizemos ao Coronel Bernardes, responsável pelo 11o contingente das tropas. Não as reproduzo literalmente, pois já não me recordo das palavras, mas mantenho o sentido intacto, que está gravado em vídeo, tanto por nós como pelas Forças Armadas Brasileiras. A primeira pergunta que fizemos foi: “Coronel, poderíamos dizer que hoje um dos objetivos das tropas brasileiras é garantir um ambiente estável para o investimento estrangeiro no Haiti?”. Coronel Bernardes respondeu sem titubear: “Sem dúvida. Um dos objetivos da missão é exatamente esse” e seguiu citando empresas brasileiras já presentes no pais, assim como ONGs. Não precisamos ir longe para descobrir que os investimentos que defendem as tropas são exatamente os investimentos em zonas francas e empresas maquiladoras, como é o caso da Coteminas de José Alencar. Mão-de-obra barata, isenção de impostos, ausência de sindicatos. Prato cheio para a superexploração.
A outra pergunta que fizemos ao Coronel foi: “Coronel, hoje as tropas brasileiras utilizam seu aprendizado no Haiti como um treinamento para atuar nas favelas do Rio de Janeiro?”. A resposta: “Sim. Um dos principais ganhos de nossas tropas é o treinamento para atuar em solo brasileiro. O Haiti está sendo para nós um laboratório.” A palavra laboratório foi utilizada pelo próprio Coronel. Alguns meses depois assistimos a invasão de vários morros no Rio de Janeiro, com saldo de muitos mortos. Vários dos principais comandantes das tropas do exército brasileiro receberam treinamento no Haiti. Você sabia disso, Daniel Iliescu?

Horas depois de visitarmos o batalhão fomos surpreendidos pelo terremoto que atingiu o país. Não vou aqui descrever o que vimos e o que não vimos, quero apenas destacar que, no que se refere ao socorro prestado pelas tropas brasileiras aos haitianos, esse foi praticamente nulo. No total, foram em torno de 160 haitianos resgatados dos escombros, dos mais de 250 mil que morreram. Não tenho dúvidas que parcela importante destes 250 mil morreu à míngua, esperando socorro, embaixo de lajes, blocos de concreto, pedaços de ferro. Os mais de 1300 soldados brasileiros presentes no Haiti durante o terremoto nada mais fizeram do que resgatar seus próprios mortos e feridos, se dirigindo posteriormente aos hoteis de luxo de Porto Príncipe, deixando claro que naquele momento estavam tão preocupados com os haitianos como sempre estiveram.

Pouco mais de um mês após o terremoto, você esteve também no Haiti. Ignoro quantos dias passou no país, sei que foi apenas uma visita diplomática. Sei também que seu maior feito foi apertar a mão do Coronel brasileiro de plantão, fazendo questão de mostrar que em nada se diferencia do restante dos militares presentes no país. Pouco se importa com os haitianos. Antes de ser presidente da UNE, ou talvez exatamente já sabendo que o seria, você teve que sujar suas mãos com o sangue do povo haitiano.
Se antes do terremoto grande parte da população haitiana via a presença das tropas com um grande sentimento de indiferença, hoje as tropas brasileiras e internacionais são odiadas por todo país. Para além dos massacres que cometeram nas periferias de Porto Príncipe, bem ao estilo dos cometidos nas favelas cariocas, as tropas da Minustah foram comprovadamente responsáveis pela introdução do vírus do cólera no país, que, após o terremoto, matou mais de 4000 pessoas e deixou mais de 200.000 contaminados. A população, indignada com o fato, saiu às ruas para protestar contra a presença das tropas. Resultado? Dois mortos e muito silêncio. Você sabia disso, Daniel Iliescu?

Infelizmente, não tenho qualquer esperança em sua gestão à frente da União Nacional dos Estudantes. Sei que mesmo que fosse qualquer outro à frente desta UNE, a perspectiva de mudança seria pouca. Os problemas da entidade há muito se agravam por sua falta de independência financeira e política e pelo projeto de educação que defende. Gostaria muito de acreditar que sua ida ao Haiti foi apenas uma ingenuidade, e que você realmente não sabia de nada disso que estou lhe contando.
No ano passado, tive a oportunidade de estar presente em uma mesa na UFRJ que debateu o terremoto no Haiti. A mesa foi composta por várias opiniões. De um lado estávamos nós da ANEL. No meio, um diplomata brasileiro indicado pela reitoria da UFRJ. À direita, um representante da ONU, convidado pela União da Juventude Socialista, da qual você faz parte.
Me lembro bem de uma companheira bastante sincera da UJS que, após minha intervenção na mesa, se inscreveu para falar. Em seus poucos minutos de fala, fez questão de dizer que estivera no Haiti como representante da UNE e que tivera a oportunidade de visitar Cité Soleil, bairro mais pobre de Porto Príncipe. Disse também que tudo o que eu estava falando era apenas um modo de se ver a realidade, e que ela havia conversado com muitos haitianos que haviam afirmado ver a presença das tropas brasileiras com muita simpatia. A companheira disse também que, quando estivera em Cité Soleil, vários soldados da Minustah a escoltavam. Provavelmente ela não imaginou que ouviria exatamente o que gostaria de ouvir dos haitianos. Esta companheira, no entanto, foi bastante sincera quando percebeu que não poderia receber resposta diferente dos haitianos enquanto estava rodeada de soldados brasileiros. Infelizmente ela teve de ir embora antes do término do debate, mas fez questão de me deixar um bilhetinho nos parabenizando pelo conteúdo que havíamos colocado.
Gostaria que este também fosse o seu caso, Daniel Iliescu. Infelizmente, acho que há muito tempo você deixou de ser ingênuo. Em sua cabeça apenas os cálculos de ascensão profissional, parlamentar, eleitoral, devem fazer sentido. Quem sabe não te veremos, daqui a alguns anos, sendo o mais bem sucedido Ministro da Educação que este Brasil poderá ter? Ministro da Educação que, se os rumos defendidos pela UNE seguirem se desenhando, terá apenas de administrar as ações das universidades “públicas” nas bolsas de valores. Esse poderá ser o auge de sua carreira e o fim da educação pública no Brasil.

Por último, gostaría de pedir encarecidamente a você que não volte ao Haiti para apertar a mão dos militares em nosso nome, em nome dos estudantes brasileiros. Nesta barricada estaremos ao lado dos estudantes haitianos que escreveram, não com tintas ou lápis, mas com estilhaços de bombas de gás lacrimogêneo e de efeito moral que as tropas brasileiras jogaram dentro de sua universidade: “Não nos pararão!”.

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