Reitoria da Unicamp tira sarro da comunidade universitária

R$150 milhões para terreno sem uso, sem qualquer discussão ampla na universidade.

 Leonardo Minelli
Estudante de Ciências Sociais da Unicamp 

Na semana retrasada toda a comunidade acadêmica da Unicamp ficou surpresa com o súbito anúncio de que a reitoria da Unicamp realizaria a compra de um terreno de área de 1.434.843,13 m² (~140 hectares, ou aproximadamente, 140 estádios de futebol), cujo valor chegaria à (assustadora) cifra de 150.000.000 de reais.

A eventualidade foi marcante sobretudo por, através dela, ter sido anunciada a existência de uma “reserva previdenciária constituída no período de janeiro de 2006 a outubro de 2008”, em posse da Unicamp, no valor de 155.000.000 de reais. Essa cifra se formou em função de uma dívida que a Unicamp tinha (e para a qual guardava dinheiro), mas cujo valor foi renegociado. Também houve, desde o período em que a dívida se formou para agora, a incidência de uma inflação, o que fez com que a soma que havia guardada se multiplicasse. A combinação desses fatores fez com que a Unicamp detivesse tal “reserva” no presente momento, no referido valor.

Na reunião extraordinária do CONSU (Conselho Universitário, principal órgão deliberativo da Unicamp) realizada no dia 05-jun (ter), cuja pauta era precisamente o terreno, decidiu-se por continuar as discussões sobre o tema, tendo em vista que não havia consenso sobre comprar ou não o terreno.

A despeito de ter retrocedido (momentaneamente) à compra, essa série de eventos explicita muito acerca da reitoria da Unicamp, dos rumos dessa universidade e do projeto que está colocado para seu desenvolvimento.

Ocupação na moradia estudantil – 2010

Primeiramente: durante o “acordo” realizado por parte da reitoria da Unicamp, quando da construção da moradia estudantil, havia o compromisso de dispor a moradia estudantil a uma porcentagem de 10% do corpo discente da universidade. À época (começo dos anos 90) esse número era próximo de 1.500. Hoje, a Unicamp quase triplicou a quantidade de estudantes (cerca de 35.000) e, no entanto, a quantidade de vagas na moradia estudantil está em torno de 900, número muito abaixo do necessário (e muito abaixo dos 10% que vigoram no projeto inicial). Sem falar que a pouquíssimo tempo, a Administração da Moradia Estudantil queria expulsar estudantes mães com filhos acima de seis anos. Além da necessidade de mais vagas na creche universitária.

Se sobra dinheiro para a Unicamp, a ponto de sua reitoria pensar em comprar um caríssimo terreno sem que haja um uso prévio para ele, achamos que é fundamental cobrar essa reitoria para que construa moradia estudantil! Existem campi da Unicamp (como o de Limeira) que não possuem moradia. Reitoria da Unicamp, use esse dinheiro para expansão do programa de moradia estudantil da universidade, e para expansão do projeto para todos os campi!

Sabemos que, além de moradia, temos outros problemas na universidade. É necessário também trazer a questão da qualidade de ensino. No presente momento, vemos explodir nas federais do país greves, que já se expandiram para quase 50 universidades. Tais greves são, em sua maioria, de professores; mas muitos estudantes e funcionários também já se somaram ao processo, tendo já diversas universidades com greve de estudantes e de funcionários técnico administrativos.

Essas greves dão resposta a problemas concretos da educação no país, que se materializam na precarização das condições de trabalho de professores e funcionários, e no aumento na relação de quantidade entre alunos e professores. A cada vez mais, os professores dão aulas a turmas maiores, e têm que manter uma quantidade cada vez maior de orientandos. A Unicamp não se encontra isolada desse contexto. Também aqui, ainda que de forma menos direta que nas federais, o processo de degradação da educação do país se manifesta.

Nesse contexto, é inaceitável que nossa reitoria cogite comprar tal terreno sem apresentar claramente qual o projeto acadêmico com ele vinculado. Se sobra dinheiro à universidade, que contratemos professores! Melhoremos a condição de trabalho dos funcionários, concedendo Isonomia com os trabalhadores das estaduais paulistas!

Nesse contexto, no qual a reitoria da universidade pode tomar uma decisão (absurda) sem qualquer discussão na universidade, é fundamental que a reitoria crie amplos espaços de discussão na universidade, acerca da compra do terreno, e acerca do projeto da universidade em geral.

Não à compra desse terreno caro e sem uso! Pela abertura de amplas discussões na universidade, com todos os setores (estudantes, professores e funcionários) acerca da questão! Por paridade dos setores nos órgãos universitários de deliberação, como o CONSU!

Pela ampliação de vagas da moradia estudantil, até atingir a cifra de 10% do corpo discente! Pela construção de moradia em Limeira!

Pela contratação de professores para a universidade! Só com mais professores melhora a qualidade de ensino!

Por isonomia salarial dos funcionários das estaduais paulistas!

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s