Com o “Dedo na Ferida” o rapper Emicida é detido pela PM após show em BH

Por Caue Pastrello,
estudante de ciências sociais da Unicamp

13 de Maio de 2012, há exatamente 124 anos, em 1888, se oficializava a “libertação dos escravos”. Porém, em Belo Horizonte, na noite deste 13 de Maio, o rapper negro Emicida, no fechamento do evento Palco Hip – Hop, movimento artístico negro, cantando para a juventude negra, foi detido pela PM por desacato a autoridade. A apresentação de Emicida começou com uma mensagem de apoio a Ocupação Eliana Silva que contava com cerca de 350 famílias, e recentemente, dia 11, foi desocupada de forma brutal pela PM de Minas Gerais a mando da Prefeitura de BH. O rapper nunca se omitiu ante a forma violenta com que a polícia e os governos tratam as famílias mais humildes e o povo pobre em geral. No caso da desocupação e expulsão de 1600 famílias do Pinheirinho, em São José dos Campos, realizada pela PM, no dia 22 de janeiro de2012, a mando do governador Geraldo Alckmin (PSDB), da prefeitura de São José dos Campos, também governada por Eduardo Cury (PSDB), e da Justiça do Estado de São Paulo, Emicida prestou total solidariedade e disse que o acontecido fazia com que o Pinheirinho fosse “o Canudos do século XXI”.

Após a sua intervenção em forma de protesto, Emicida começou a cantar sua música “Dedo na Ferida”, que trata justamente deste tema, após pouco tempo a polícia começou a invadir o palco e querer prender Emicida por desacato. Seria desacato se utilizar do microfone para protestar contra a forma violenta com que a PM trata os mais humildes? Seria desacato protestar contra a política brasileira que trata como caso de polícia qualquer movimento social? Como o próprio Emicida diz em “Dedo na Ferida”: “Ainda vivemos como nossos pais Elis… Quanto vale uma vida humana, me diz?”. Parece que ainda vivemos no tempo dos nossos pais, pois ao vermos ações como essa, imaginamos que a ditadura ainda não acabou, e as vítimas dessa repressão e perseguição têm classe e cor, o povo pobre negro da periferia. Com certeza para a PM e para os políticos, a vida humana vale muito menos do que qualquer propriedade privada, seja ela de especuladores ou abandonadas.

Se o povo negro não tem direito sequer a uma denúncia quando seus direitos são violados, se não podem sequer ter sua voz amplificada através do movimento Hip – Hop, que dirá então em ambientes de produção de conhecimento, como as Universidades Públicas? Pois a mesma elite que pressiona para que os governos ataquem o direito das famílias à moradia em favor de suas propriedades, é a elite que se põe de pronto contra as Cotas Raciais nas Universidades, se apoiando no mito da “democracia racial”, e tentando esconder a imensa desigualdade de oportunidades que os negros e negras têm de enfrentar, condenando o povo negro à marginalização. Vemos, com a atitude da PM, que a repressão dos senhores de escravos foi substituída pela ação de polícias e milícias, que exterminam jovens negros na periferia e buscam calar aqueles que denunciam a opressão. Após o show Emicida foi levado a uma delegacia e em seguida liberado.

Por isso é necessário organizar a resistência a esses ataques e a política de criminalização da pobreza e da periferia. O movimento hip-hop é hoje uma expressão dessa resistência, e assim como os quilombos o foram no passado, é perseguido e criminalizado pelo governo e pela polícia. É preciso denunciar essa falsa democracia que vivemos, onde quem manda são os ricos e empresários e o povo trabalhador não tem voz nem vez. Como diz Emicida em “Dedo na Ferida”: “Porque a justiça deles, só vai em cima de quem usa chinelo e
é vítima […]” e a “[…] agressão de farda é legítima”.

– Total solidariedade ao rapper Emicida e a todos os artistas engajados na luta pela transformação social!
– Contra a criminalização da pobreza, da população negra e dos movimentos sociais!
– Pela desapropriação do terreno do Pinheirinho em prol dos trabalhadores!
– Pela implantação de cotas raciais nas universidades, proporcionais à população negra da região respectiva!

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